A conferência de Wannsee e a consolidação do Holocausto.





Em 20 de janeiro de 1942, um grupo de oficiais nazistas de alto escalão reuniu-se no subúrbio de Wannsee, em Berlim. Eles receberam uma missão ultrassecreta, que vinha diretamente de Hitler e fora entregue por Hermann Göring, assessor do ditador.
A tarefa que o Führer deu a esses comandantes era providenciar o extermínio de toda a população judaica da Europa, uma política que recebeu o nome de Endlosung, ou "Solução Final" para a questão dos judeus.
Presidindo o encontro estava Reinhard Heydrich, segundo no comando da SS e responsável pelo Escritório Central de Segurança do Reich. Razoavelmente jovem, com 38 anos de idade, Heydrich era tão cruel que diziam que o próprio Hitler era cauteloso com ele. Embora as minutas oficiais utilizassem velados eufemismos para descrever a reunião e o transporte dos judeus para campos de extermínio, Heydrich não tinha dúvidas quanto ao destino deles. Como costumava dizer, a Solução Final passaria "um pente-fino por toda a Europa" e nenhum judeu escaparia vivo.
Embora a questão fosse tratada como segredo de Estado, o programa exigiria milhares de soldados da SS, cientistas, médicos e administradores para ser levada a cabo. Muitos desses homens apreciavam a oportunidade, como Adolf Eichmann, chefe do Escritório Central de Raça e Reassentamento da SS e encarregado pela logística da operação.
O antissemitismo já existia na Alemanha há séculos, e os judeus residentes no país foram perseguidos, subtraídos em suas posses e assassinados nos primeiros anos do regime nazista que antecederam a guerra. Agora, no entanto, esse sentimento assumiria sua forma mais diabólica.
Antes mesmo que Heydrich e seus colegas tivessem seu encontro em Wannsee, unidades da SS em cooperação com o exército alemão, vinham matando judeus sistematicamente desde a ocupação da Polônia e da União Soviética, entre os anos de 1939 e 1941.
De fato, o desejo nazista de "resolver" a questão judaica havia alcançado um estágio tão sofisticado que, a essa altura, tiros de revólver não eram mais considerados uma maneira humana de matar os milhões de judeus que caíram sob domínio alemão quando a máquina de guerra de Hitler passou pelo Leste Europeu. "Humana" no ponto de vista dos executores, melhor dizendo...
Muitos deles começavam a ficar esgotados com o estresse causado pelo morticínio de milhares e milhares de homens, mulheres e crianças que, primeiro, tinham todas as roupas retiradas, depois recebiam tiros na nuca e, finalmente, eram jogados em grandes valas comuns. Então, para preservar a sanidade de seus homens, Heinrich Himmler, comandante da SS, ansiava pelo desenvolvimento de novos métodos de aniquilação. Em dezembro de 1941, os nazistas experimentaram pela primeira vez o uso de gás em Chelmno, um vilarejo da Polônia. Os judeus do local foram colocados em caminhões, supostamente para serem levados para campos de trabalho forçado. Cada veículo foi modificado para que o tubo do escapamento expelisse a fumaça na carroceria hermeticamente fechada, envenenando com monóxido de carbono aqueles que estavam lá dentro. Com isso, o uso de gás foi considerado um sucesso e passou a ser empregado em campos de extermínio na Polônia. Logo, a matança de judeus progrediu para escada industrial.


Na imagem: Adolf Eichmann, idealizador da Solução Final.
Depois da guerra, evitou a captura, mas foi perseguido e aprisionado pelo governo de Israel, que o executou em 1960. 



Mas como foi que a Alemanha, aparentemente uma das nações mais civilizadas e cultas da Europa - apesar da forte tradição militar -, adotou como política de Estado o genocídio de judeus? E não somente eles, como também os deficientes mentais, homossexuais, maçons e ciganos? Desde que assumiu o controle do Partido Nacional Socialista, criado em 1918 com a intenção de difundir o nacionalismo entre a classe operária, e transformado depois de 1920 no vingativo e militar Partido Nazista, Adolf Hitler não guardava segredos sobre seu ódio paranoico com relação ao povo judeu. Em sua opinião, eles eram uma raça, e não uma religião; uma raça que "ofendia" o estilo de vida alemão. Na racista filosofia nazista, que enxergava a vida como uma eterna disputa entre raças adversárias, os judeus eram perigosos inimigos da pureza ariana. E, como tal, precisavam ser erradicados. A maneira exata com que Hitler pretendia alcançar esse objetivo permaneceu uma incógnita até muito tempo depois que ele ascendeu ao poder, em 1933. E mesmo nessa época seus planos de extermínio em massa foram mantidos em segredo da maioria dos alemães e do resto do mundo.
Em sua obra política Mein Kampf ("Minha Luta", em tradução livre), Hitler descreveu o momento em que, pela primeira vez, teve plena consciência do "perigo" judeu. Ele vivia em Viena antes da Primeira Guerra Mundial, e foi lá que a revelação aconteceu:
"Um dia em que passeava pelas ruas centrais da cidade, subitamente me deparei com um indivíduo vestido em longo cafetã e com vastos cachos pretos pendidos da cabeça. Meu primeiro pensamento foi: isso é um judeu? Em Linz [cidade natal de Hitler], eles não tinham as características externas da raça. Observei o homem, disfarçada mas cuidadosamente, e quanto mais eu contemplava aquela estranha figura, examinando-a traço por traço, mais perguntava a mim mesmo: isso é também um alemão? Como acontecia sempre em tais ocasiões, tentei remover minhas dúvidas recorrendo aos livros. Pela primeira vez na minha vida, comprei, por poucos pfennigs, alguns panfletos antissemíticos".
A partir de então, o antissemitismo e a crença em uma "conspiração" judaica mundial tornaram-se obsessões para Hitler. Já no poder, ele começou a colocar seu credo racista em prática, inicialmente sem pressa, e depois com intensidade cada vez maior. Primeiro, tropas de choque da SS começaram a impor um boicote às lojas administradas por judeus. Muitos alemães obedeceram, mas outros resistiram ou simplesmente ignoraram. Uma das principais contestadoras era a temerária avó de Dietrich Bonhoeffer, teólogo protestante que seria enforcado em 1945 por sua oposição aos nazistas. Essa valente senhorinha forçou a passagem pelos soldados que afugentavam clientes de um estabelecimento judeu, alegando que sempre comprou ali e que pretendia continuar comprando (maravilhosa demais amigos). Nem todos, no entanto, eram tão corajosos. Alguns ficavam amedrontados com as ameaças da SS. Outros, obviamente, aprovavam a discriminação.
O desejo de Hitler em ver a Alemanha livre da presença de judeus entrou na legislação em 1935, quando as Leis de Nuremberg foram aprovadas e proibiram todos os judeus de possuir cidadania. A partir de então, nenhum deles seria considerado alemão.






Na imagem: propaganda de guerra nazista de 1942 proclama: "Atrás do poder inimigo: os judeus!".
Os nazistas retratavam a guerra como o resultado de uma sinistra conspiração mundial dos judeus, e não como consequência direta do desejo absurdo de Hitler em estabelecer uma "Nova Ordem" na Europa.








Com as novas leis, uma pessoa era classificada como judia se tivesse ao menos um avô ou uma avó com raízes do grupo étnico. Entre os requisitos para ingressar na elite da SS, o candidato precisava provar que tinha sangue "puro", sem nenhum laço com a etnia por seis gerações ou 150 anos. Outra medida tomada para preservar a "honra" da Alemanha proibiu o matrimônio entre judeus e arianos. Aqueles que já estavam casados foram forçados a se divorciar.



Nesse estágio, os nazistas pretendiam resolver a "Questão Judaica" tornando a vida na Alemanha insuportável de tal modo que os judeus preferissem emigrar do que permanecer e ser descriminados em seu próprio país.
O cinismo com que se tratou a emigração de judeus alemães era surreal. Eles não podiam levar seus títulos de propriedade, e recebiam pouca ou até nenhuma compensação por seus estabelecimentos e casas, que tinham de "vender" antes de partir. Na prática, isso significava confisco e revenda para os arianos, com lucros enormes para o Estado. Essa "arianização" da economia ganhou velocidade máxima depois que Ernest von Rath, membro da embaixada alemã em Paris, foi baleado e morto por um judeu polonês de 17 anos chamado Herschel Grynszpan. O homicídio deu aos nazistas a desculpa que eles precisavam para lançar seu primeiro pogrom (ataque violento a um grupo de pessoas, que destrói tudo em seu ambiente) em todo território nacional, apoiado pelo governo. Como resultado, a data 9 de novembro de 1938, a mesma da morte de Von Rath, ficou conhecida como Kristallnacht, ou Noite dos Cristais.
Em uma demonstração "espontânea" do sentimento alemão organizada pelo Partido Nazista, 7.500 estabelecimentos foram destruídos, 267 sinagogas foram incendiadas e 91 judeus morreram pelas mãos das gangues que saqueavam as lojas, destruíam as mercadorias, espancavam os proprietários e ateavam fogo nos templos. Os nazistas tinham cuidado especial em queimar a maior quantidade possível de artefatos religiosos. Pilhas de livros e rolos de Torá, que contém as sagradas escrituras judaicas, foram consumidas pelas chamas junto a outros objetos preciosos.
Além de terem seus lares destruídos e suas posses confiscadas, os judeus alemães ainda passaram pela humilhação de arcar com uma multa de um bilhão de marcos como compensação pela morte de Von Rath. E os lojistas deviam pagar do próprio bolso pelos estragos sofridos durante o ataque. Foi Hermann Göring em pessoa quem decretou a punição. Medidas também foram tomadas para garantir que as companhias de seguro pagassem indenizações ao governo, que havia organizado a orgia de violência, e não aos judeus, que viram suas propriedades serem devastadas.
A Kristallnacht chocou muita gente, dentro e fora da Alemanha, que antes acreditava que as histórias de perseguição nazista aos judeus eram exageradas. Era a primeira vez que alguns alemães questionavam a decência do regime sob o qual viviam.

Entrada de Auschwitz-Birkenau: O complexo de campos de concentração formava um dos nervos centrais da Solução Final, onde grandes câmaras de gás e crematórios (capazes de queimar 2 mil corpos de uma vez só) reduziam seres humanos a cinzas com uma velocidade insana.

A Grã-Bretanha ficou particularmente enfurecida com o acontecimento, pois um jornal alemão, o Angriff, acusava de maneira bizarra políticos como Winston Churchill, Anthony Eden e Clement Attlee de incitarem Grynszpan a matar Von Rath. O periódico The Times foi duro em sua avaliação, descrevendo a fúria insensata da Noite dos Cristais como "cenas sistemáticas de pilhagem e destruição que não se veem em países civilizados desde a Idade Média".
Os nazistas não se abalaram, é claro. Nos dias seguintes à Kristallnacht, a perseguição continuou. Aproximadamente 25 mil judeus considerados ricos forram atirados em campos de concentração, sendo que o primeiro deles, Dachau, já funcionava desde 1933. Os judeus foram banidos de muitas profissões e não podiam mais trabalhar como médicos, advogados ou contadores. Suas carteiras de motorista perderam a validade e, em Berlim, eles foram confinados em certas áreas e forçados a morar em guetos. Também foram proibidos de ingressar em locais públicos, como cinemas e parques, e tampouco podiam portar armas de fogo. Naturalmente, uma parcela aproveitou a chance para sair da Alemanha enquanto podia, viajando para algum outro país da Europa ou para os Estados Unidos. No entanto, menos de 200 mil judeus alemães, de um total de 500 mil, conseguiram partir antes da Noite de Cristais. Alguns dos que ficaram acreditavam que seria possível sobreviver, pois assim tinham feito através dos séculos. Outros, é claro, simplesmente não tiveram condições de ir embora.
O ritmo da perseguição continuava a aumentar, e a guerra fez com que passasse dos estágios iniciais de exclusão e emigração forçada para a fase de isolamento em guetos. Os primeiros passos foram dados após a conquista da Polônia pelas tropas alemãs, que colocou milhões de judeus polacos ao alcance de Hitler. Algumas semanas após a conquista nazista, em setembro de 1939, um gueto foi erguido na cidade de Piotrkow, seguido de outros por toda a Polônia. Dentro dos guetos, os judeus recebiam tão pouca comida que logo estavam morrendo de fome. Centenas faleciam todas as semanas, mas o "progresso" ainda não era rápido o bastante para os alemães. Para levar o projeto adiante, campos de extermínio foram montados em Chelmno, Treblinka, Birkenau e Sobibor. Os locais não foram escolhidos por acaso. O antissemitismo existia há tempos no país e os nazistas não esperavam problemas ou protestos, muito embora os próprios poloneses sofressem graves abusos.
Os campos de extermínio tinham um propósito diferente dos campos de concentração, onde judeus e outros trabalhavam até a morte. O objetivo era matar os prisioneiros rapidamente e não havia trabalho para ninguém. Homens, mulheres e crianças saudáveis eram despidos, tinham seus cabelos raspados e as roupas separadas em pilhas para o esforço de guerra alemão. Em seguida, eram levados para câmaras de gás e tinham seus corpos queimados em fornos especiais.
O sinistro cheiro de carne queimando não deixava dúvidas sobre a função dos campos para os moradores das redondezas. O que acontecia ali também não era segredo para os Aliados, que deixaram claro que haveria punição para esses crimes repulsivos assim que a guerra acabasse. No entanto, não houve resposta aos repetidos apelos de organizações judaicas e outras para que os campos e as ferrovias que levavam a eles fossem bombardeados.
Nos campos de concentração, os judeus trabalhavam à exaustão fabricando armas. Quando não tinham mais utilidade, eram levados às câmaras de gás dos campos de extermínio. Alguns eram brutalmente assassinados em "experimentos médicos" totalmente sádicos.
Em Dachau, os prisioneiros eram deliberadamente infectados com malária. Outros eram expostos a pressões de ar extremas até morrerem. Alguns eram submersos em água congelante até ficarem inconscientes para testar métodos de ressuscitação. Quem sobrevivia, era morto logo em seguida.
Maidanek foi o primeiro campo de extermínio liberado, em 25 de julho de 1944, pelos russos. Ficava perto da cidade de Lublin, na Polônia, e, quando o Exército Vermelho chegou, mais de 1,5 milhão de pessoas já haviam perecido ali.
Apesar das tentativas da SS de acobertar o que se praticava nos campos antes da chegada dos Aliados, a terrível verdade sobre a Solução Final foi revelada para o mundo, que, após seis anos de um conflito selvagem, acreditava que nada mais pudesse chocar tanto assim. 
A população mundial ficou realmente abalada pelas obscenidades cometidas em nome da supremacia racial e da ideologia nazista.

A Solução Final tirou a vida de cerca de 6 milhões de judeus. Apenas a vigésima parte da população judaica que existia na Europa antes da guerra sobreviveu. Dois milhões de ciganos também foram mortos em busca da pureza ariana.